Sobre o PÃO, sobre o PADEIRO, sobre uma certa PADARIA

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Sobre o PÃO, sobre o PADEIRO, sobre uma certa PADARIA -

Heliana Querino 

Na última década do século XIX, reuniam-se no Café Java, de Mané Coco, e que se situava no ângulo nordeste da Praça do Ferreira (também chamada Avenida Ferreira), alguns intelectuais... É assim, com estas palavras, que Sânzio de Azevedo inicia o prefácio do livro Padeiros Muito Letrados, em que destaca depoimento de Antônio Sales no livro Retratos e Lembranças (1938), os intelectuais eram eles, Sales, Lopes Filho, Ulisses Bezerra, Sabino Batista, Tibúrcio de Freitas, Álvaro Martins e Temístocles Machado.

Adiante, Sânzio de Azevedo relata que dois deles, Ulisses e Sabino, com o argumento de que o Ceará, cessada a efervescência dos tempos da Academia Francesa, de 1873, e do Clube Literário, de 1886, atravessava um período de estagnação cultural, começaram então, a planejar a criação de um grêmio para despertar o interesse pelas coisas do espírito.
Ana Miranda, em prefácio do O Pão – Padaria Espiritual, traz as palavras de Antônio Sales anunciando a inauguração da Agremiação “Numa bela manhã de julho ao ano da graça de 1892, o Forno surgia aos olhos da população do Forte embandeirado, florido, pimpão e ruidoso como um viveiro de periquitos. Foguetes esfuracavam o azul, e uma banda de música trauteava polcas alegres.
Um dos primeiros itens do Programa dizia que os “padeiros” teriam um nome de guerra.
Eis os nomes reais e os nomes de guerra dos rapazes da primeira e da segunda fase do grêmio:
Venceslau Tupiniquim (Jovino Guedes) – Moacir Jurema (Antônio Sales) que redigiu o Programa de Instalação e deu o nome de Padaria Espiritual – Lúcio Jaguar (Tibúrcio de Freitas) – Frivolino Catavento (Ulisses Bezerra) – Alcino Bandolim (Carlos Vítor) – Silvino Batalha (José de Moura Cavalcante) – José Marbri (Raimundo Teófilo de Moura) – Policarpo Estouro (Álvaro Martins) – Anatólio Gerval (Lopes Filho) – Túlio Guanabara (Temístocles Machado) – Sátiro Alegrete (Sabino Batista) – Mogar Jandira– Sarasate Mirim (Henrique Jorge) – Lucas Bizarro (Lívio Barreto)  - Corrégio del Sarto (Luís Sá) – Paulo Kandalaskaia (Joaquim Vitoriano) – Inácio Mongubeira (Gastão de Castro) – Félix Guanabarino (Adolfo Caminha) – Miguel Lince (José dos Santos) – Marco Agrata (João Paiva) e Aurélio Sanhaçu (Antônio de Castro). Policarpo Estouro e Túlio Guanabara foram expulsos “por traição”, e Venceslau Tupiniquim renunciou. Em seguida foram admitidos os padeiros: Bruno Jaci (José Carlos Júnior), Marcos Serrano (Rodolfo Teófilo), Paolo Giordano (Almeida Braga), Ivan d’Azof (Valdemiro Cavalcante), André Carnaúba (Antônio Bezerra), Cariri Braúna (José Carvalho), Bento Pesqueiro (X. de Castro), Gil Navarra (José Nava), Benjamim Cajuí (Roberto de Alencar), Flávio Boicininga (Francisco Ferreira do Vale), Lopo de Mendoza (Artur Teófilo), Abdul Assur (Cabral de Alencar) e Brás Tubiba (Eduardo Saboia).

 

“Os passantes paravam a nossa porta, e tudo quanto era janela da rua Formosa apinhava-se de pessoas de todos os sexos e idades. Alguma cousa de extraordinário se passava no Forno... Curiosos acotovelavam-se a perguntar que diabo seria aquilo... Dentro em pouco rasgava-se o mistério aos gritos estridentes de meninos que apregoavam O Pão, cuja edição esgotou-se dentro de poucas horas.”
A sociedade de “rapazes de letras e artes” pretendia fornecer “pão de espírito aos sócios em particular e aos povos em geral”. Fazendo uso da galhofa e da índole boêmia, um “vivo espelho do espírito de troça que animava os revolucionários letrados da terra dos cabeças-chatas”, nas palavras de Leonardo Mota, anunciaram o Programa de Instalação, uma série de 48 artigos que determinavam as regras do funcionamento.
Os rapazes reuniam-se todas as noites, exceto às quintas-feiras, e nos domingos à tarde, em sessões chamadas de fornadas, cujas preciosas atas foram encontradas no Instituto do Ceará e vêm sendo estudadas por Sânzio de Azevedo, como destaca Ana Miranda em já referido prefácio.
Em breve, caros leitores, traremos aqui outras curiosidades sobre a espirituosa agremiação Cearense, Padaria Espiritual - para brindar os 130 do Grupo intelectual, com as personalidades que marcaram e fazem parte da história literária e cultural do Ceará.
 
Fontes - O Pão, Padaria Espiritual, Padeiros muito letrados (Armazém da Cultura)


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