Sobre esperanças, por Íris Cavalcante

O blog da editora Armazém da Cultura abre espaço aos escritores, autores ou futuro autores, para publicação de crônicas. A estreante é Iris Cavalcante, especialista em Escrita Literária e MBA em Administração Estratégica. Estreou na literatura em 2003, teve publicações como autora independente, participação em coletâneas e revistas eletrônicas. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2018 na categoria poesias com o Vento do 8º andar. 

Sobre esperanças 

Os humanos não somos os seres mais importantes que habitam o planeta. Acordar às 5 da manhã é uma oportunidade única de ouvir a orquestra dos pássaros que sobrevivem nesta selva de pedra. Eles estão aparecendo em maior número e com mais frequência, saindo de um isolamento ao qual nós os submetemos a partir de nossas escolhas de mercado. Hoje eles se libertam e nos confinamos, não será a lei universal do retorno?
O canto do bem-te-vi é o que mais se destaca ou o único que eu reconheço. Desconhecer a melodia dessas criaturinhas voadoras, coloridas e cantantes é o reflexo de um comportamento zumbi da contemporaneidade, alheio aos sons e silêncios que a natureza produz. Já fiz parte dessa civilização alienada, mas hoje a Inteligência Universal nos dá a todos, a oportunidade da escuta, do olhar mais apurado e da opção de mudar. Alguns se apropriam dessa escolha, outros a ignoram.

O frio da manhã ainda por volta das 5 sopra na minha varanda e me traz o espírito do vento. Tudo é natureza em nossa volta, mesmo suprimida por arranha-céus e corporações da pirâmide social que monopolizam a grana do planeta. A natureza resiste e os povos originais da terra que a respeitam, apesar da devastação, perseguição ematança. A ameaça e o medo com que esses povos lidam há cinco séculos, hoje chega a nós. Não romantizemos uma humanidade homogênea, enquanto um indivíduo ou um grupo tirar vantagem do outro pela violência. Seja em tempos passados ou no presente, nos interesses de mercado ou em relações tóxicas quando alguém subjuga outro.

O sol aparece. Vou à padaria de manhã cedo e escuto o silêncio da cidade, encontro gatinhos se escondendo dos humanos debaixo dos automóveis parados, uns miam pra chamar minha atenção, alguns se recolhem, outros se expõem, eles reconhecem com sua inteligência instintiva se somos amigos ou predadores. Há uma biodiversidade que sobrevive aos apelos de consumo de uma Fortaleza de desconcertante desigualdade social que hoje se confronta num mesmo parâmetro de vulnerabilidade, independente da conta bancária de quem a habita. A cidade não parou como deveria, uma nova consciência ou um modo novo de existir não chegou a muitos. Os que são consumidores antes de se reconhecerem como organismos de uma coletividade, ainda lamentam os shoppings fechados, a aquisição de um novo sapato ou aquela bolsa que vai ser adiada, a escritura patrimonial que precisa ser mantida.

O sentimento de solidariedade que se potencializou em alguns tantos de nós, arrisco dizer que na maioria, não atingiu aqueles que se julgam donos do planeta, presos em sua bolhas de existência, o domínio antropoceno. Há traços de sociopatia quando o indivíduo não reconhece a necessidade do outro ou de grupos coletivos em situação de risco nesse organismo chamado Terra. Se não podemos passear nas ruas como antes, que o passeio se dê para dentro de nós e nos reconecte com a subjetividade que o momento propõe, nos liberte de tantas vaidades humanas.

Então, lá estou na fila do pão e me lembro de um grupo de pessoas que mora na rua Júlio Azevedo, no Papicu, sob tendas improvisadas. Sim, estas pessoas moram na rua que o fortalezense chama de cracolândia. Alguns as veemcomo uma ameaça à segurança dos prédios de classe média do entorno, outros como um problema social invisível pelo poder público. Pertenço à categoria dos segundos.

Na fila do pão, penso: eles também gostariam de um café com pão. Fiquei certa disso, quando vi sorrisos em pétalas se abrindo pra mim. Confesso que a minha história recente me tornou carente de pessoas verdadeiras, de risos sinceros, sejam brilhantes, tímidos, escondidos com as mãos, sorrisos com dentes ou sem dentes, cada um com sua beleza de dentro pra fora. Fiquei de fato, feliz. Fiz alguém feliz.

Quem trabalha com a escrita tem uma necessidade quase vital de compartilhar percepções. Qualquer um de nós pode dar e receber uma felicidade dessas, que reforça uma simbologia trazida lá dos tempos da infância: a memória afetiva do café da manhã.
Essa narrativa tão simples me permitiu começar o dia com algo que não adquirimos no mercado, mas subsiste dentro de um compartimento de nossas mentes. Esperanças. Assim mesmo no plural.

 

 


8 comentários

  • Gostei tanto que me inspirei e escrevi um!

    Verônica Castelo Branco
  • Parabéns Íris Cavalcante, seu texto nos convida à uma reflexão sobre nossa postura diante da cenas diárias com as quais nos deparamos. Parabéns!!!!

    Carlos Alves
  • Amore muito obrigada por fazer parte da minha existência,com tamanha riqueza intelectual vc é muito especial.

    Maria do Socorro
  • Genuíno e. Um quadro da qualidade extraordinária dos nossos dias. Os nossos dias cheios de provação e beleza. Em simultâneo. Dar é receber.

    Gostei do texto. Obrigado por nos dares a tua palavra e sensibilidade.
    🙏

    Jaime Soares
  • Obrigada pela oportunidade. Feliz Páscoa!

    Íris Cavalcante

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