Caracol, por Cleverson Garrett

Literatura

O novo colaborador do blog da editora Armazém da Cultura se chama Cleverson Garrett. Finalista do prêmio Jabuti 2018, Garrett nasceu em Curitiba-PR, é jornalista, poeta e escritor, trabalhou na Europa como correspondente internacional e Produtor Musical. Na Suíça, foi editor da Revista Flash Latino e colaborador do Jornal Via Brasil de Zurique.  Em 2013 estreou com o livro Mosaico, depois Suspiro foi lançado em Lisboa. Seu terceiro livro A Lata do Poeta, foi finalista do Prêmio Jabuti 2018. Recentemente lançou duas publicações: Vim, Vi, Venci – Biografia de Paulo Pimentel, e o livro agenda 2020 – 366 Dias de Sexo. Então, vamos à nossa próxima e adorável leitura!

 Caracol 

Você já se sentiu assim frágil como porcelana? Que a qualquer momento pode quebrar? Então vinha eu caminhando pela avenue Boulevard de Perolles, em Fribourg, na Suíça, quando contornei a loja da Denner e entrei na rue de L’industrie, sempre acompanhado daquela sensibilidade que a fragilidade nos permite, um estado de consciência alterado, pois quando estamos confiantes tudo parece menos ameaçador.

Refletindo então, sobre a montanha-russa que é a minha vida, diga-se de passagem, com mais descidas do que subidas, quando olhei para o chão e vi algo que brilhava em meio à noite úmida. O asfalto molhado e um pouco de óleo davam um brilho lisérgico aquele pequeno pedaço de rua. Olhei melhor e vi algo em alto relevo que combinava perfeitamente com aquele colorido. Continuei caminhando e, de repente, parei com o pé exatamente ao lado, mas o que é isto? Indaguei a mim mesmo, como fazemos quando não tem nenhum chato a nos observar, e podemos falar alto, sem sentir o peso de um olhar estúpido. Abri bem os olhos e para minha surpresa contemplei: um caracol!

Um caracol! Puxa! Quase pisei nele! Mas que diabo, quem liga para um caracol na rua esticado como uma minúscula preguiça!? Que tipo de idiota vai parar numa noite chuvosa para ver um caracol? Eu, um idiota do tipo sonhador. Então me abaixei e olhei os detalhes magnificamente pintados na casa que ele carregava nas costas. O meu pé quase causou uma tragédia, quase interrompera aquela trajetória, quase esmagara a segurança do ser vivente. Ali impassível ele se deslocava na velocidade que lhe convinha e, sem perceber a ameaça oculta, continuava sua marcha. Olhei ao redor. Eram vários, creio que motivados pelo começo do verão e pelo frescor da noite, a umidade era um convite tentador.

Abri a porta do prédio, subi as escadas e entrei. Agora era eu a me sentir seguro em minha casa.Tomei um copo de água, sentei e o pensamento levou-me a uma região obscura do cérebro, então veio aquela frase como uma navalha cortando a carne, friamente silenciosa: seremos nós tão estúpidos quanto os caracóis? Abrigados na falsa segurança de nossas casas, intocáveis, em nosso planeta. Não existe segurança! É um perigo estar vivo!

A qualquer momento um tufão, um furacão ou o que quer que seja, pode tal qual um pé ameaçador, pisar em nossa segurança, esmagar nossas construções, e então feito o caracol, nem saberemos o que se passou. Estranhamente o pequeno caracol me tirou de minha introspecção, percebi o quanto somos frágeis, não existem certezas, a vida está por um fio o tempo todo.  

 







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  • Iris Cavalcante em

    Parabéns pela crônica que nos induz a uma oportuna reflexão.

  • Daniele em

    Em tempos de corona, faz todo sentido. Uma reflexão para todos.



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